Homens são chamados a assumir papel ativo no combate à violência contra a mulher em debate na Câmara de Hortolândia
A Câmara Municipal de Hortolândia realizou, na noite desta quinta-feira (5/03), o painel “Combater a Violência Contra a Mulher, um Papo também de Homens”, reunindo autoridades, especialistas e representantes da sociedade civil para discutir a necessidade de ampliar a participação masculina no enfrentamento à violência de gênero e na transformação de estruturas culturais ainda marcadas pelo machismo.
O encontro aconteceu no plenário da Casa de Leis e teve como proposta incentivar a reflexão sobre o papel dos homens na construção de uma sociedade mais justa e segura para as mulheres, destacando que a mudança passa pela revisão de comportamentos e pela participação ativa de toda a sociedade.
Participaram do debate a deputada estadual Ana Perugini; a delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher de Hortolândia, Dra. Alline Vincentim; o professor Ronaldo Alexandrino, doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas; o secretário municipal de Segurança, Dr. Joldemar Nunes Corrêa; a secretária de Inclusão e Desenvolvimento Social, Maria dos Anjos; além de representantes da rede de proteção às mulheres.
Também estiveram presentes a presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Hortolândia, Adriana Ribeiro; a gerente do Departamento de Políticas Públicas para Mulheres e responsável pelo CRAM, Tatiara Ebuerno; e o vereador de Campinas Yanki Mello.
Durante o debate, os convidados destacaram que o enfrentamento à violência contra a mulher exige mudanças culturais profundas, principalmente na forma como a sociedade constrói as relações entre homens e mulheres.
O professor Ronaldo Alexandrino ressaltou que compreender o problema passa necessariamente por analisar a forma como o poder masculino foi historicamente estruturado na sociedade.
“Quando falamos de violência contra a mulher, precisamos também falar dos homens, porque historicamente eles aparecem como protagonistas da violência, enquanto as mulheres são as vítimas. Isso está ligado a uma estrutura antiga de poder, marcada pelo patriarcado, que ao longo da história colocou o masculino no centro da sociedade e o feminino em posição de subordinação. Como afirma Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, ‘não se nasce mulher, torna-se’. Se o feminino é uma construção social, o masculino também é. Por isso, os homens precisam olhar para si mesmos e repensar a masculinidade que reproduzem, porque uma masculinidade que gera violência e mata mulheres precisa ser transformada”, afirmou.
Na área da segurança pública, o secretário municipal de Segurança, Dr. Joldemar Nunes Corrêa, destacou que o enfrentamento à violência precisa envolver toda a sociedade e ir além das medidas repressivas.
“Nós que convivemos diariamente com a violência contra a mulher sabemos que todos precisam estar envolvidos. Só prender não melhora ninguém. É preciso mudar o olhar do homem. Em Hortolândia acompanhamos atualmente dezenas de casos de medidas protetivas e registramos ocorrências diariamente, o que mostra a importância de ações educativas e preventivas”, explicou.
A secretária de Inclusão e Desenvolvimento Social, Maria dos Anjos, reforçou que a violência contra a mulher não é um problema individual, mas social.
“Essa causa não é só das mulheres, é da sociedade. Precisamos quebrar esse paradigma para que não escutemos mais notícias de mulheres que perderam a vida apenas por serem mulheres. É preciso trabalhar na educação, dentro dos lares e com as novas gerações para construir uma sociedade mais justa”, destacou.
Já a delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher de Hortolândia, Dra. Alline Vincentim, relatou situações vividas diariamente no atendimento às vítimas e destacou a importância de romper o silêncio diante da violência.
“Muitas mulheres passam décadas sofrendo violência até conseguirem romper esse ciclo. Às vezes, faltou um amigo, um vizinho ou um familiar para incentivar essa mulher a buscar ajuda. A violência não pode ser tratada com omissão. É fundamental que homens reflitam sobre seu papel e ajudem a transformar essa realidade”, afirmou.
A deputada estadual Ana Perugini também ressaltou a importância da participação masculina na prevenção da violência.
“Muitos casos poderiam ser evitados se um homem se posicionasse contra a violência. Precisamos desconstruir essa masculinidade tóxica que atualmente está nos espaços de poder e decide sobre o corpo das mulheres e construir uma nova cultura baseada no respeito”, destacou.
Movimento Eles por Elas – Hortolândia
Durante o evento foi lançado o Movimento Eles por Elas – Hortolândia, iniciativa formada por voluntários da sociedade civil que irão desenvolver ações educativas voltadas principalmente ao público masculino jovem e adulto.
A proposta é promover conversas e atividades em espaços do cotidiano, como escolas, comunidades religiosas, empresas, associações e ambientes esportivos, incentivando os homens a refletirem sobre seu papel na construção de relações mais respeitosas.
O vereador Nei Prazeres explicou que o movimento surgiu a partir da percepção de que a luta contra a violência de gênero precisa contar também com o protagonismo masculino.
“O Movimento Eles por Elas surgiu ouvindo as pessoas nas ruas e percebendo que, muitas vezes, nas lutas dessa natureza, as mulheres estão à frente porque são as principais vítimas. Nós percebemos que faltava a presença dos homens. A proposta é levar essa conversa para o cotidiano, para o futebol, o churrasco, as igrejas, as escolas e as empresas, chamando os homens a participarem ativamente dessa luta”, afirmou.
Voluntários do Movimento Eles por Elas – Hortolândia
O movimento foi lançado com a participação de um grupo de voluntários que atuará na mobilização das ações educativas:
- Antônio Carlos Santana, guarda municipal aposentado e liderança comunitária;
- Delzira Lima, especialista em saúde mental e inteligência emocional;
- Dra Fernanda Regina Rodrigues do Prado, advogada especialista na Lei Maria da Penha;
- Dr. Ivair de Macedo, advogado;
- Lilian Jordani Gonçalves Soares, psicóloga
- Dr. Luiz de Queiroz, médico psiquiatra e ex-vereador de Hortolândia;
- Dra. Raquel de Queiroz, dentista;
- Valter Luiz Campos, o Valtinho do Cartório, liderança comunitária.
A expectativa é que o grupo desenvolva atividades de diálogo e conscientização em diferentes espaços da cidade, ampliando a participação dos homens na construção de uma cultura de respeito, igualdade e proteção às mulheres.

ODS 05 - Igualdade de Gênero
A iniciativa está alinhada com a ODS 05 da ONU – Igualdade de Gênero, garantindo a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas.